... olho para o contador que tínhamos lá em cima e vejo que faltavam apenas 95 dias. Pouco mais de três meses para termos o nosso primeiro filho nos braços. Fui reler tudo o que escrevi e lembrei-me do longo e doloroso processo, dores assim não se esquecem, mas ao ler revivi os primeiros dias tão complicados. Depois do último post passaram-se dias e semanas de muitas dores, dores agonizantes, dores que nunca pensei serem possíveis... e que infelizmente não tiveram um desfecho feliz. Perdemos o bebé às 8 semanas, no dia 10 de Dezembro.
Quem está de fora lê mas não imagina a tortura que foi, foram semanas sem dormir 5 minutos, foram dias em que não conseguia fechar os olhos durante 2 minutos que acordava com as maiores dores da minha vida, dias em que não conseguia pegar num prato para comer, em que não conseguia abrir a porta do elevador, em que não conseguia sequer vestir-me que tinha logo umas dores horríveis, as piores dores que já senti na minha vida. Foram tantas as idas à médica, às urgências, as ecografias, os betas dia sim dia não durante 15 dias ao ponto de já ter as veias tão magoadas de tirar sangue que as próprias pessoas que o faziam já me diziam que lhes custava ter de me tirar sangue outra vez por terem pena de mim, foi a incerteza de saber como iria acabar, o estar feliz mas com receio... até que acabou. Nunca me hei-de esquecer das palavras da médica naquela madrugada nas urgências do Hospital dos Lusíadas "Está aqui o embrião, mas já tem muito sangue, não me parece que vá para a frente" ao mesmo tempo que encolhia os ombros... e assim vim para casa numa sexta feira, com indicação de repouso absoluto até ir à minha médica na 5ª feira seguinte. O resto não vale a pena contar. Fica para nós.
Felizmente, não precisei de curetagem, comprimidos, nada. Correu tudo bem e dois meses depois já a médica dizia que estava tudo bem e que podíamos voltar a tentar. Em Dezembro achava que por esta altura já estaria pronta. Em Fevereiro não estava e hoje ainda não estou... foi traumatizante demais. Eu não tive uma gravidez e um aborto espontâneo como as outras pessoas, eu tive dores horríveis sem causa aparente, dores que dominavam os meus dias e as minhas noites desde antes de saber que estava grávida até ao dia em que perdemos o bebé, dores tão fortes que quase me faziam desmaiar, que me deixavam em agonia.... durante dois longos meses. A minha médica disse-me uma vez que eu não vivi aqueles dois meses, eu sobrevivi.
A nossa médica tem muitas grávidas e disse-me várias vezes que nunca teve um caso como o meu. Que não fazia ideia do que se estava a passar. Mas rapidamente ficou tudo bem. E para onde vamos quando está tudo bem? Passámos por análises, exames, e não há problema nenhum que pudesse ter causado aquelas dores. Vamos então para um gastroenterologista já para a semana. Pode ser que aqui tenhamos respostas, que tenhamos a solução para voltarmos a tentar com a certeza que vai ser diferente, que vai correr tudo bem desta vez.
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