quinta-feira, 28 de abril de 2011

O que não cheguei a postar...

A 6 de Dezembro ele era assim, pequenino e ainda existia...

Um dia este blog...

... vai ser um babyblog.

Até agora esteve privado, era só para nós. Há pouco tempo decidi abri-lo a todos. Porquê? Na altura não quis que ninguém soubesse o que se estava a passar, só nós e os nossos pais é que sabiamos. A ideia era contar aos amigos depois dos três meses mas infelizmente não correu como gostaríamos. Mas um dia... um dia este blog vai ser um babyblog e os posts que cá estão não vão ser apagados porque fazem parte do nosso caminho até aqui. Porque eu não quero esconder. Foi um bebé que existiu, foi nosso filho durante oito semanas e se até há pouco tempo era complicado para mim ter uma visão objectiva de tudo o que aconteceu, hoje já o consigo fazer. Quando penso no antes, no durante e no depois houve algo que não me deixou indiferente. Durante todo o processo, eu e o Sandro fomos processando os acontecimentos isoladamente, sempre achei que cada pessoa sente as coisas à sua maneira e todos nós lidamos com as adversidades de modo diferente e como tal concluí que cada um precisava do seu espaço e do seu tempo para processar o que aconteceu. O que eu não contava era que chegássemos os dois às mesmas conclusões, ao mesmo tempo. Um dia ele disse-me: "Eu fui pai durante 8 semanas". Foi exactamente esta a conclusão a que eu tinha chegado há bem pouco tempo. E eu disse-lhe: "Tudo o que se passou, foi como se estivesse a ver tudo de fora, como se não fosse eu. Foi uma sucessão de acontecimentos, todos tão rápidos que nem parecia estar a vivê-los." E ele sentiu o mesmo. Isto de certa forma marcou-me e ao mesmo tempo fez-me respirar de alívio por alguém sentir exactamente o mesmo que eu.

Um dia este blog vai ser um babyblog e vai correr tudo bem.

Por alguma razão...

... ainda não consegui apagar lá de cima o contador. É algo tão distante e ao mesmo tempo ainda tão presente. É como se apagando o contador estivesse a apagar essa parte das nossas vidas e isso eu não quero. Por enquanto vou deixá-lo estar. Um dia, talvez.

sábado, 23 de abril de 2011

Hoje...

... olho para o contador que tínhamos lá em cima e vejo que faltavam apenas 95 dias. Pouco mais de três meses para termos o nosso primeiro filho nos braços. Fui reler tudo o que escrevi e lembrei-me do longo e doloroso processo, dores assim não se esquecem, mas ao ler revivi os primeiros dias tão complicados. Depois do último post passaram-se dias e semanas de muitas dores, dores agonizantes, dores que nunca pensei serem possíveis... e que infelizmente não tiveram um desfecho feliz. Perdemos o bebé às 8 semanas, no dia 10 de Dezembro.

Quem está de fora lê mas não imagina a tortura que foi, foram semanas sem dormir 5 minutos, foram dias em que não conseguia fechar os olhos durante 2 minutos que acordava com as maiores dores da minha vida, dias em que não conseguia pegar num prato para comer, em que não conseguia abrir a porta do elevador, em que não conseguia sequer vestir-me que tinha logo umas dores horríveis, as piores dores que já senti na minha vida. Foram tantas as idas à médica, às urgências, as ecografias, os betas dia sim dia não durante 15 dias ao ponto de já ter as veias tão magoadas de tirar sangue que as próprias pessoas que o faziam já me diziam que lhes custava ter de me tirar sangue outra vez por terem pena de mim, foi a incerteza de saber como iria acabar, o estar feliz mas com receio... até que acabou. Nunca me hei-de esquecer das palavras da médica naquela madrugada nas urgências do Hospital dos Lusíadas "Está aqui o embrião, mas já tem muito sangue, não me parece que vá para a frente" ao mesmo tempo que encolhia os ombros... e assim vim para casa numa sexta feira, com indicação de repouso absoluto até ir à minha médica na 5ª feira seguinte. O resto não vale a pena contar. Fica para nós.

Felizmente, não precisei de curetagem, comprimidos, nada. Correu tudo bem e dois meses depois já a médica dizia que estava tudo bem e que podíamos voltar a tentar. Em Dezembro achava que por esta altura já estaria pronta. Em Fevereiro não estava e hoje ainda não estou... foi traumatizante demais. Eu não tive uma gravidez e um aborto espontâneo como as outras pessoas, eu tive dores horríveis sem causa aparente, dores que dominavam os meus dias e as minhas noites desde antes de saber que estava grávida até ao dia em que perdemos o bebé, dores tão fortes que quase me faziam desmaiar, que me deixavam em agonia.... durante dois longos meses. A minha médica disse-me uma vez que eu não vivi aqueles dois meses, eu sobrevivi.

A nossa médica tem muitas grávidas e disse-me várias vezes que nunca teve um caso como o meu. Que não fazia ideia do que se estava a passar. Mas rapidamente ficou tudo bem. E para onde vamos quando está tudo bem? Passámos por análises, exames, e não há problema nenhum que pudesse ter causado aquelas dores. Vamos então para um gastroenterologista já para a semana. Pode ser que aqui tenhamos respostas, que tenhamos a solução para voltarmos a tentar com a certeza que vai ser diferente, que vai correr tudo bem desta vez.